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sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O MECANISMO DA INTUIÇÃO Celso Batalha (MST – Loja Jinarajadasa) Algumas obras têm sido publicadas recentemente, estabelecendo paralelos entre a filosofia oriental e a física moderna (1) (2). A própria psicologia da Gestalt sofreu um impulso extraordinário ao adotar, tanto na descrição das chamadas "zonas de consciência" humanas quanto nos trabalhos de grupo, teorias e técnicas de meditação budista (3). Paralelamente, o interesse pela medicina oriental (acupuntura, shiatsu, do-in) vem crescendo consideravelmente. Como compreender esta lenta mas progressiva difusão dos conceitos da mística e da religião oriental em ramos da ciência moderna, possuindo a frente um método de trabalho puramente analítico, racional? E mais, os cientistas sairiam beneficiados pelo estudo do método intuitivo, típico das culturas orientais? A estas indagações podemos acrescentar: o método científico, servindo-se da lógica e do raciocínio, prescinde da intuição? Um bom cientista jamais teve a curiosidade de exercitar e estimular as suas faculdades imaginativas? A intuição sempre esteve presente no momento dos grandes avanços da ciência, e isto é indiscutível. Schemberg (4) comenta: "(na ciência, a intuição) é o elemento preponderante. O que é um grande físico? Não é o sujeito que sabe mais Física que o outro, mas o que tem mais imaginação". Schemberg também lembra que grandes matemáticos deixaram "um certo número de teoremas formulados mas não demonstrados". Os matemáticos chegavam a tais teoremas, não devido ao raciocínio, pois do contrário eles o teriam demonstrado, mas em conseqüência desta inusitada faculdade de percepção. "Eles vêem o teorema" diz Schemberg. As seguintes citações são esclarecedoras: 1. "As idéias felizes vêm inesperadamente, sem esforço, como uma inspiração. Quanto a mim, elas nunca vêm quando minha mente está fatigada". Helmholtz. 2. "Acredito em intuição e inspiração ... Às vezes tenho certeza de que estou certo sem saber por que ..." Einstein. 3. "A chave do método apropriado vem direto do ar. Algo novo, como uma idéia ou uma melodia, é tirado do espaço". Edson. 4. "As idéias criativas não vêm enquanto estou na minha mesa de trabalho, mas freqüentemente se projetam na minha mente enquanto estou empenhado em outras atividades". Jules Henri Poincaré. Antes da atual especialização da ciência, esta visão direta e precisa era utilizada na cultura do ocidente, conjuntamente com a especulação filosófica, na investigação de fatos naturais. Numa carta ao seu discípulo Flaccus, Plotinus inclui a seguinte definição: "O conhecimento possui três níveis: opinião, ciência e iluminação. O meio ou instrumento da primeira é o senso comum; o da segunda, a dialética; o da terceira, a intuição". Segundo Hall (5), a intuição teria sido posteriormente rejeitada pela ciência por ser incontrolável e imprevisível; ela não encontrou abrigo junto a um método de trabalho que impunha a definição e o controle de todos os parâmetros utilizados. Atualmente, num artigo científico de qualquer revista especializada, a motivação da pesquisa, o método utilizado, a descrição dos instrumentos, os resultados e as conclusões encontram-se dispostos de tal forma que outros institutos de pesquisa tenham condições de repetir a mesma experiência; agora, a imaginação do autor, o saber escolher o melhor procedimento (para se ter maior rendimento, maior economia, etc.), tudo isto não se encontra explicitado, não é considerado. O parâmetro criativo do autor não pode ser equacionado por ele próprio e, tão pouco, repetido por outro cientista; se o fosse, deixaria obviamente de ser criativo e novo, não se obtendo portanto o mesmo parâmetro inicial. A Raja Yoga, uma das escolas de Yoga da Índia, acrescenta uma técnica através da qual a intuição pode ser conseguida a qualquer instante, segundo a vontade do praticante (yogue). Discutiremos resumidamente este mecanismo de intuição, deixando a apresentação da requerida disciplina mental para outra ocasião. O MECANISMO Na filosofia oriental o Universo tem sua origem na Divina Realidade, fonte e substrato de toda Vida e Forma. Urna das expressões desta Realidade última é a Alma Humana, que se encontra subjetivamente separada da fonte universal; o seu destino é integrar-se conscientemente a fonte universal e esta união é denominada Yoga. A Mente Cósmica, um dos três aspectos da Divina Realidade, é a ideação subjacente a toda criação no universo. O campo no qual se dará a construção do lado forma, possui matéria de diferentes graus de densidade, sendo a mais "grosseira", o mundo percebido pelos sentidos. O reflexo deste atributo Divino na Alma Humana é MANAS, a mente, com faculdades de raciocínio, memória, observação, reflexão, compreensão. "Como é no Macrocosmo, assim é no Microcosmo": a mente humana será o meio onde se desenvolverá a Alma Humana. O trabalho do Yogue é o de conhecer as funções da mente, ter domínio sobre as mesmas e ter acesso consciente ao princípio que as organiza, que lhes dá razão de ser. BUDDHI, este princípio, pode ser traduzido como intuição". Assim como é no Macrocosmo, assim é no Microcosmo: BUDDHI é o reflexo do Amor Cósmico na Alma Humana, outro aspecto da Divina Realidade. Na filosofia oriental, a intuição é a luz chamada BUDDHI que flui sobre a mente e, como toda luz, possui urna fonte, uma origem e esta é a Consciência. ATMA, o terceiro princípio, é o centro da Consciência, refletindo no homem a Omnipotência ou Vontade Divina. Os três princípios ATMA, BUDDHI e MANAS geram toda percepção humana e este mecanismo encontra-se esquematizado na figura acima: Os três graus do conhecimento de Plotinus: opinião, ciência e iluminação estão representados neste esquema. O senso comum (opinião) corresponde à simples reação da mente aos impulsos dirigidos pelos sentidos (segmento O'L); é a atividade mental de mais baixa ordem. O senso comum sugere que o Sol gira ao redor da Terra, não o contrário. A ciência, já inclui não somente o senso comum mas também, e principalmente, a reflexão e raciocínio (segmento O'L, O'M). Os fatos isolados são agrupados segundo classes gerais. A busca de síntese na ciência, meta dos teóricos e empíricos, resume-se no descobrimento de leis naturais e suas respectivas representações simbólicas (fórmulas, teorias) e na posterior comprovação em diferentes laboratórios, segundo as mesmas condições. A iluminação cria a intuição (segmento O'N). A experiência mística é o funcionamento momentâneo ou prolongado da consciência no nível intuitivo. Como BUDDHI reflete o Amor Cósmico, os relatos místicos normalmente tornam-se impregnados do sentimento de união do religioso com Deus, ou com o particular objeto da devoção. Na interação entre o sujeito e um objeto, a iluminação de BUDDHI no conjunto de fatos, idéias, conceitos e dados acumulad0s pela memória (fazendo parte da bagagem de experiências passadas entre o sujeito-objeto), conferem a propriedade da inteligência, compaixão, simpatia, compreensão. O homem, por exemplo, pode ter um raciocínio agudo que o torna um habilidoso técnico: no entanto a falta de inteligência (de BUDDHI, do Amor Cósmico) o leva ao uso do raciocínio em interesses próprios, podendo ser contrários à harmonia coletiva. Da mesma forma, o indivíduo conduzido freqüentemente à satisfação de prazeres sensórios (opinião), as ações resultantes serão condicionadas pelos eventos externos tornando-o um ser reativo e portanto dependente, apegado. A intuição acompanha os cientistas na inspiração e criação, sendo imprescindível em qualquer pesquisa. Por razões históricas, o treinamento e a investigação da faculdade intuitiva não teve lugar na própria ciência, embora algumas tradições a tenham estudado, experimentado e escrito a respeito. O mecanismo intuitivo proposto pela escola Raja-Yoga apresenta a intuição, BUDDHI, como um princípio distinto das faculdades mentais conhecidas: raciocínio, lógica, memória, compreensão, e tem a propriedade de iluminá-las e dar a perspectiva correta numa investigação. Referências Bibliográficas. 1. Capra, F., "The Tao of Physics” Wildwood: House, 1976 2. Postle, D., "Fabric of The Universe”, Macmillan London Limited, 1976. 3. Pearls, F., "A Abordagem Gestaltiana e Testemunha Ocular da Terapia" - Ed. Zahar, 1977. 4. Sahemberg, M. (entrevista); "Revista de Ensino de Física", vol. l n2, out. 1979. 5. Hall, M. P., "Pathways of Philosophy", Philosophical Researah Society, 1947. Artigo publicado na revista LOGOS no 6, outubro de 1981

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